sexta-feira, 30 de março de 2007

Quando for grande quero ser Chefe de Projecto

Não sei quando isto aconteceu. Suspeito que tem vindo a acontecer devagarinho ao longo dos anos, mas torna-se cada vez mais aparente.

Nos primórdios da informática, ser um bom programador era uma coisa que merecia respeito. Um programador era alguém que dominava a tecnologia e a punha a fazer o que era necessário. Era um herói. Alguém que justificava os mitos urbanos sobre computadores extraordinários e aplicações revolucionárias que traziam lucros fabulosos às empresas.

Hoje, a imagem que se tem de um programador é alguém com mais de 50 anos, que nunca tirou um curso e que está "encalhado" a manter aplicações velhas. Em vez de programador, qualquer informático que se preze começa a sua carreira como Consultor. E não pára por aí, evidentemente. Em breve o Consultor tem que passar a Chefe de Projecto. O curioso é que depois anda uma série de anos a gerir projectos de uma pessoa! ;-)

Parece-me que há aqui vários equívocos, quer nas empresas quer na cabeça dos técnicos.

Vejamos:
  • A mais importante actividade informática é a criação de sistemas de informação e para isso é preciso fazer duas coisas: programas e bases de dados
  • Um consultor, por definição, é alguém que consultamos para obter opiniões, com base na sua experiência; contratar alguém que se designa consultor sem ter experiência e pô-lo a executar o trabalho é uma perversão do conceito e um erro
  • A chefia de projectos só pode ser bem executada por alguém que, para além de uma grande experiência nas tecnologias e metodologias a utilizar, tem boa capacidade organizativa e sabe gerir o "cliente"
  • Dada a grande evolução das tecnologias e metodologias, um chefe de projectos nunca pode deixar de actualizar os seus conhecimentos no desenvolvimento das aplicações, caso contrário perderá a principal justificação para lhe serem atribuídos projectos para gerir
Uma observação que se pode fazer é que mais vale ser um bom programador em projectos importantes e complexos, onde se pode ganhar experiência, do que ser chefe de "projecto da treta".

Quanto às empresas, provavelmente fariam melhor em incentivar os bons programadores a manterem-se nessa carreira, dando-lhes o respeito que eles merecem. Lembremo-nos que um bom programador pode ter uma produtividade 50 vezes superior a um programador medíocre. Mas só se chega a bom programador se se estiver motivado. Ora a atitude actual de considerar o programador como um elemento menor nas equipas de desenvolvimento só motiva o profissional a fazer o que puder para não ser confundido com um deles.

O resultado é que temos programadores que têm vergonha de o ser, chefes de projecto sem experiência, e equipas de desenvolvimento com baixa produtividade.