quarta-feira, 10 de março de 2010

Facebook: o fim da privacidade ou o abuso de confiança?

Em Janeiro, Mark Zuckerberg, fundador do Facebook, afirmou que as expectativas da sociedade mudaram e que a que a privacidade já não é norma.

Esta postura liberal em relação aos dados das pessoas seria pouco importante se fosse apenas uma discussão teórica. Mas Mark Zuckerberg controla a maior rede social do mundo, com mais de 400 milhões de utilizadores registados e, se Mark quiser, pode saber tudo o que eles lá colocam, seja público ou privado, incluindo todas as suas ligações, fotos da família, mensagens trocadas, conversas em chat, etc.. Mais: um dos mecanismos que o Facebook nos disponibiliza para encontrarmos velhos amigos depende de lhe darmos as nossas credenciais de acesso a contas de email, incluindo a nossa palavra passe.

Notícias recentes dão conta de um processo judicial contra Mark Zuckerberg, que é acusado de usar informação confidencial registada no Facebook para entrar nas contas de email de rivais e jornalistas. Muito para além das posições públicas de Mark sobre a pouca importância que dá à privacidade individual, estas notícias indiciam uma prática de total desrespeito pela confiança que os utilizadores do Facebook nele depositaram.

Venha ou não a haver condenação, há um problema de fundo que importa abordar, e não tem a ver com um indivíduo que abusa da confiança. Em vez disso, o problema é a confiança exagerada que os utilizadores de redes sociais e aplicações partilhadas colocam nos empresários que os criaram e nos seus funcionários.

De um modo geral, quando alguém opta por colocar os seus dados num servidor que pode estar do outro lado do mundo, está a arriscar a que esses dados sejam consultados por quem não devia poder fazê-lo. O risco pode ser maior ou menor, consoante o valor dos dados e a honorabilidade da empresa. Mas o risco existe sempre.

E não tenhamos dúvidas: quando os dados contidos no servidor valerem mais do que o negócio de manter o serviço, esses dados vão ser roubados, se dermos essa oportunidade ao ladrão.

Resta saber se algum dia a vítima virá a saber disso e se haverá algum sistema de justiça com braços suficientemente longos para condenar o prevaricador que pode estar numa jurisdição longínqua.

Segundo estimativas apresentadas há pouco tempo, o valor do Facebook deve ultrapassar em breve os mil milhões de dólares, o que será justificado apenas com os enormes lucros de publicidade. Depois de ler isto, talvez comecem a suspeitar que o valor atribuído ao Facebook não é só pelo negócio da publicidade. Eu também. ;-)