segunda-feira, 10 de setembro de 2007

Jogos violentos: a (ir)responsabilidade da indústria... e dos pais


Não sou psicólogo. Não sou pedagogo. E portanto sou pouco habilitado a mandar bitaites sobre a questão da violência dos jogos e do seu impacto na sociedade. Mas pertenço à indústria "dos computadores". E sou pai. Por isso acho que posso e devo ter uma opinião formada sobre este assunto.

Brincar, jogar, são actividades fundamentais no desenvolvimento de qualquer animal "superior", em particular o homo sapiens. E para que servem estas actividades? Servem para treinar o corpo e a mente para as actividades que irão ser realizadas durante a vida adulta.

Dentro desta óptica, que me parece não fugir muito ao consenso sobre a utilidade da brincadeira durante o desenvolvimento, o jogo tem a função de criar e solidificar hábitos e reacções a estímulos que, quando são necessários mais tarde serão utilizados de uma forma perfeitamente inconsciente pelo adulto.

Em poucas palavras:

jogo = treino = condicionamento


Uma boa parte da indústria do software dedica-se, como todos sabemos, a criar jogos. O que é um negócio perfeitamente legítimo. Infelizmente, parte desses jogos recorre frequentemente a uma violência extremamente gráfica e cada vez mais realista, para criar estímulos nos seus utilizadores.

A imagem que se apresenta acima corresponde a um anúncio enganador usado por uma software-house que produz estes jogos. Nalguns países mais atentos, este anúncio foi proibido. Não nos deixemos iludir: o treino da violência não dá paz interior. Antes dá propensão para o uso da violência como solução fácil para qualquer problema.

Muitos pais assumem que, como os jogos se vendem livremente nas lojas, são inócuos. Posso relembrar que o consumo de cocaína, há 100 anos atrás, era aconselhado às senhoras de sociedade por muito boa gente? Nem por isso era inócuo. Alguns pais chegam a dizer que não há razão para preocupações, porque as crianças "sabem distinguir o que é jogo do que é realidade". Mas esquecem-se da função condicionante do jogo, que faz com que as reacções se tornem automáticas quando os estímulos adequados se apresentam. Talvez valesse a pena fazer um estudo sobre o surgimento da moda do street racing, com o enorme desrespeito pela vida dos outros utilizadores da estrada, e verificar qual a influência da enorme quantidade de jogos de condução violenta que apareceram nos últimos anos.

O apuramento das espécies pela selecção natural acabou por ditar maiores probabilidades de sobrevivência aos indivíduos que retiravam mais prazer da brincadeira (porque treinavam mais). Na espécie humana, pela grande complexidade da sua cultura e das suas actividades, o jogo ganha uma importância especial. Daí que os seres humanos tenham uma enorme apetência pelos jogos, em especial durante a infância e juventude.

Uma parte da indústria dos jogos aproveita-se irresponsavelmente desta característica humana, numa atitude pouco ética que não beneficia em nada os seus clientes. Os pais olham para o outro lado e não percebem os mecanismos neurológicos que estão em acção. O resultado é que os jovens são condicionados para reagir de forma violenta e ser-lhes-á difícil e trabalhoso desmontar esses reflexos na vida adulta, dificultando a sua integração numa sociedade pacífica e próspera.